Avanços e desafios da saúde ocupacional no Brasil

Por Dr. José Aldair Morsch, 27 de agosto de 2018
Importância da saúde ocupacional no Brasil

Saúde ocupacional é um setor essencial na área da saúde.

Ela lida unicamente com a saúde do trabalhador, garantindo que ele possa desempenhar suas atividades sem doenças, dores ou outros problemas relacionados ao ambiente de trabalho.

Ao buscar dados referentes a saúde ocupacional no Brasil, percebe-se que o trabalhador não aparece nos dados epidemiológicos do SUS.

A invisibilidade da área de medicina ocupacional nos dados estatísticos públicos mostra a necessidade de valorizar a maior discussão sobre o assunto para melhorar qualidade de saúde da força de trabalho.

Neste artigo, vou esclarecer o que é saúde ocupacional, quais os exames mais comuns que são realizados por ela e a importância de ter dados claros a respeito desse segmento.

Além disso, mostrarei os problemas mais comuns que a saúde ocupacional pode diagnosticar. 

Boa leitura!

Afinal, o que é saúde ocupacional?

É a área médica que foca na qualidade de vida de um trabalhador em um determinado setor de atuação profissional, prevenindo a ocorrência de doenças e outros problemas de saúde.

As condições devem ser acompanhadas por um médico do trabalho e pelos demais profissionais responsáveis pela segurança no ambiente corporativo.

O principal objetivo da saúde ocupacional é garantir um ambiente de trabalho propício, visando o seu e bem-estar físico e emocional enquanto desempenha suas atividades. 

Ao pensar no ambiente e os riscos aos quais ele está exposto, incluindo acidentes de trabalho, a medicina ocupacional previne problemas que o funcionário pode enfrentar e que podem prejudicar na sua rotina.

É devido a sua atuação que os profissionais têm mais tranquilidade, ergonomia, relaxamento e garantia de bem-estar nas empresas. 

É importante destacar que a saúde ocupacional é considerado um setor obrigatório em empresas de pequeno, médio e grande porte. 

Além do mais, apesar de ser mais conhecido por realizar exames admissionais e demissionais, ele realiza diversos outros com a mesma importância. 

A saúde ocupacional visa garantir a saúde dos trabalhadores através condições propícias

Área obrigatória para empresas brasileiras, a saúde ocupacional tem o objetivo de garantir o bem-estar dos trabalhadores

Qual a importância da saúde ocupacional?

A medicina ocupacional é vista como uma aliada porque possui a finalidade de garantir a saúde dos colaboradores, prevenindo acidentes e outros distúrbios que não apenas prejudicam no seu trabalho, mas na sua vida como um todo.

Porém, a saúde ocupacional é ainda mais importante em relação a instituição – apesar de algumas empresas ainda a verem como apenas uma obrigação.

Isso porque ela oferece um ambiente realmente agradável e eficiente para que os seus colaboradores consigam realizar suas atividades.

Consequentemente, eles ganham profissionais mais motivados e sadios, influenciando na produtividade e até nos custos da empresa – que não precisará se preocupar em repor pessoal devido à acidentes ou doenças, por exemplo.

Quais os exames mais comuns de saúde ocupacional?

Há uma série de exames que podem ser realizados pelo médico do trabalho, com destaque para:

Exame admissional

Esse exame da medicina ocupacional é realizado quando o profissional é contratado pela empresa.

Nele, podem ser realizados os seguintes testes:

  • Anamnese ocupacional: Consiste em uma espécie de entrevista com o intuito de saber sobre o histórico médico. Ela também tem a função de avaliar se o profissional está apto física e mentalmente para exercer a atividade;
  • Pressão arterial e batimentos cardíacos: para verificar se eles estão dentro da normalidade;
  • Saúde das articulações: fundamental para tarefas que exigem esforço ou posições repetitivas. É comum que o médico avalie a postura, movimentos e possíveis lesões articulares.

Em funções de risco, como aquelas em que o indivíduo é exposto a agentes físicos, podem ser solicitados exames complementares, como:

  • Eletrocardiograma;
  • Espirometria;
  • Eletroencefalograma;
  • RX;
  • Audiometria;
  • Acuidade visual.
O exame admissional é um dos mais comuns na saúde ocupacional

Verificação de pressão sanguínea, batimentos cardíacos e articulações são alguns dos exemplos de exames admissionais

Exame demissional

Consiste nos testes realizados para avaliar se o estado de saúde do profissional não foi prejudicado devido à atividade que ele estava exercendo.

Desta forma, garante-se que ele está apto a retornar ao mercado de trabalho.

Retorno ao trabalho

Esse exame costuma ser solicitado quando o profissional retorna às atividades após ficar um período afastado.

Seu objetivo é verificar se ele está apto ou se é necessário mais um tempo de reclusão.

Mudança de função

É realizado quando o profissional vai mudar de cargo e se deseja avaliar se ele está apto para desempenhar a nova função.

Isso é especialmente importante quando a pessoa vai atuar em atividades de risco, pois ela deve passar por exames ainda mais específicos.

Apesar de todos esses exames, que são de conhecimento da grande maioria, ainda são poucos os dados e estatísticas acerca do assunto.

Abordarei mais sobre o assunto a seguir.

Importância da Epidemiologia na saúde ocupacional

A tomada de atitudes de melhorias em qualquer setor da sociedade depende de dados.

A coleta de informações é feita por áreas específicas de pesquisa lideradas por epidemiologistas.

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Mesmo sabendo da importância desse assunto na sociedade, os dados estatísticos mostram que os trabalhadores são “invisíveis” perante o sistema público de saúde.

Veja quais são os órgãos públicos responsáveis pelos estudos e registros de acidentes:

1 – Renast

A Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador, criada a partir da Portaria 1.679 de 19 de setembro de 2002 (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002), é a responsável pelos registros dos dados.

A Renast é uma das estratégias para a garantia da atenção integral à saúde dos trabalhadores.

Ela é composta por Centros Estaduais e Regionais de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) – ao todo, até outubro de 2009, 178 unidades espalhadas por todo o País – e por uma rede de 1.000 serviços sentinela de média e alta complexidade.

A função é diagnosticar os agravos à saúde que têm relação com o trabalho e de registrá-los no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

2 – Cerest

São os centros de referência em saúde do trabalhador.

Recebem recursos financeiros do Fundo Nacional da Saúde de R$ 30 mil para serviços regionais e R$ 40 mil para as unidades estaduais, para realizar ações de:

  1. Prevenção, apoiando e capacitando os integrantes da CIPA – Comissão interna de prevenção de acidentes do trabalho;
  2. Promoção da saúde do trabalhador;
  3. Diagnóstico de doenças;
  4. Tratamento;
  5. Reabilitação;
  6. Vigilância em saúde dos trabalhadores urbanos e rurais.

Todas as atuações desses órgãos são independentes do vínculo empregatício e do tipo de inserção no mercado de trabalho.

3 – Visat

A Vigilância em Saúde do Trabalhador compreende:

  1. Vigilância sobre os agravos relacionados ao trabalho, tradicionalmente reconhecida como vigilância epidemiológica;
  2. Intervenções sobre fatores de risco, ambientes e processos de trabalho;
  3. Ações relativas ao acompanhamento de indicadores para fins de avaliação da situação de saúde;
  4. Articulação de ações de promoção da saúde e de prevenção de riscos.

Os principais desafios da saúde ocupacional por áreas temáticas

1. Agrotóxicos

A discussão dos problemas da exposição humana e ambiental aos agrotóxicos não se restringe somente aos cuidados no consumo. 

Está mais do que na hora de ver uma questão como essa sendo discutida no Congresso Nacional, indo desde os cuidados do trabalhador até o consumo final.

2. LER/DORT e outras doenças ocupacionais

É o principal desafio na prevenção dos riscos profissionais, lesões e acidentes.

Aqui, porém, o problema está em não preencher o CAT – Comunicação de acidente de trabalho, para encaminhar junto à Previdência Social.

O LER é um dos principais desafios da saúde ocupacional

Causada por movimentos repetitivos, a LER é bastante comum nos punhos, devido a postura errada de quem trabalha com computadores.

3. Problemas pontuais referentes aos setores de:

  1. Mineração;
  2. Extrativismo;
  3. Canavieiro;
  4. Madeireira;
  5. Indústria têxtil;
  6. Agropecuária;
  7. Carcinicultura;
  8. Acidentes relacionados ao trabalho;
  9. Problemas relacionados ao meio ambiente.

Veja que as problemáticas atuais de saúde e a sua interface com o modelo de desenvolvimento sempre vai envolver o ambiente e o trabalho.

Entre os principais eixos, ressalta-se a priorização de ações orientadas a:

  1. Sensibilização.
  2. Diagnóstico.
  3. Vigilância em saúde do trabalhador.
  4. Educação permanente.
Alguns setores requerem mais atenção e cuidados para prevenção de riscos

Alguns setores trazem mais desafios para a medicina ocupacional devido a natureza de suas funções

Quais os desafios para colocar em prática a saúde ocupacional?

Muitas empresas gostariam de contar com médicos do trabalho internos, para, assim, oferecer os exames necessários para atuar na prevenção dos riscos profissionais.

Porém, existem algumas barreiras a serem superadas, como a questão dos custos que ela envolve. 

A boa notícia é que existem soluções mais vantajosas e que, ainda, assim, oferecem o serviço desejado.

Investimentos para acompanhar o crescimento econômico

Ao invés de internalizar o atendimento, uma solução é fazer parceria com uma clínica de medicina ocupacional.

Agora se você já possui um médico do trabalho, mas não quer investir em uma ampla infraestrutura, a saída está no atendimento virtual utilizando empresas de Telemedicina.

Através dela, é possível receber laudos e interpretação dos exames médicos para os atestados como ASO – Atestado de saúde ocupacional de maneira ágil e barata.

A estratégia de usar uma Plataforma de Telemedicina para interpretar os exames ocupacionais e liberar o atestado de saúde ocupacional com agilidade já é uma realidade para a medicina do trabalho.

Inclusive, clínicas de medicina ocupacional estão investindo em modernizar ônibus com consultórios e exames. O objetivo é atender zonas remotas de construção de estradas e barragens que precisam de exame admissional, demissional e periódicos sem precisar se deslocar para os centros.

A telemedicina faz com que consultas de qualidade cheguem a trabalhadores mais afastados de grandes centros

Com a telemedicina, o trabalhador por realizar consultas e ter exames prontos em menos de 30 minutos.

2. Uso de aplicativos de ensino em SST (segurança e saúde do trabalhador)

A conectividade permite que o trabalhador seja informado sobre o seu ambiente de trabalho e riscos.

Aplicativos para a saúde ocupacional monitoram a qualidade de vida, bem-estar, regularidade na prática de exercícios e isso traz melhora nos índices.

O aplicativo faz perguntas, divididas por temas e fases e permite a interação entre os usuários.

Utilização de aplicativo para auxiliar saúde ocupacional

Aplicativo foi criado para facilitar acesso e interação sobre segurança no trabalho

Os temas apresentados, inicialmente, são conceitos básicos em SST, como:

Transporte

Motoboys e caminhoneiros;

Educação

SST nas escolas e jovem aprendiz;

Ergonomia e segurança química

Uso do benzeno.

Também há a possibilidade de baixar materiais educativos em PDF na seção Biblioteca.

A saúde ocupacional e seus desafios segundo a OMS

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, os 9 maiores desafios para a saúde do trabalhador atualmente e no futuro são:

  1. Problemas de saúde ocupacional ligados a novas tecnologias de informação e automação;
  2. Novas substâncias químicas e energias físicas;
  3. Riscos de saúde associados a novas biotecnologias;
  4. Transferência de tecnologias perigosas;
  5. Envelhecimento da população trabalhadora;
  6. Problemas especiais dos grupos vulneráveis (doenças crônicas e deficientes físicos), incluindo migrantes e desempregados;
  7. Problemas relacionados com a crescente mobilidades dos trabalhadores;
  8. Ocorrência de novas doenças ocupacionais de várias origens.
O Ministério da Saúde desenvolveu o PNSST para melhorar a segurança no trabalho

As diretrizes visam melhorar as condições de trabalho e aumentar a segurança.

As ações integradas do Ministério da Saúde para a saúde ocupacional

Na esfera interinstitucional, o Ministério da Saúde desenvolve uma política de ação integrada com os ministérios do Trabalho e Emprego e da Previdência Social. 

O nome é Política Nacional sobre Saúde e Segurança do Trabalho (PNSST), que possui as seguintes diretrizes:

I – Ampliação das ações, visando a inclusão de todos os trabalhadores brasileiros no sistema de promoção e proteção da saúde;

II – Harmonização das normas e articulação das ações de promoção, proteção e reparação da saúde do trabalhador;

III – Precedência das ações de prevenção sobre as de reparação;

IV – Estruturação de rede integrada de informações em Saúde do Trabalhador;

V – Reestruturação da formação em Saúde do Trabalhador e em segurança no trabalho e incentivo à capacitação e à educação continuada dos trabalhadores responsáveis pela operacionalização da política;

VI – Promoção de agenda integrada de estudos e pesquisas em segurança e Saúde do Trabalhador.

Conclusão

Apesar dos avanços significativos na medicina do trabalho, a vigilância em saúde do trabalhador ainda necessita de articulação intra e interinstitucional, de ações interdisciplinares e intersetoriais, transversais a um sistema de vigilância com consolidação institucional.

Afinal, a saúde ocupacional influencia diretamente na saúde do trabalhador, na sua qualidade de vida e, consequentemente, eleva a produtividade das empresas.

A estatística mostra que metade da população trabalha em algum negócio formal ou informal e existem dados alarmantes sobre o número de pessoas que se acidentam, ficam incapacitados, sem contar o número de óbitos.

Monitorar esse ambiente e propor saídas alternativas, como o uso do meio digital, é o melhor caminho, tendo em vista que reduz os custos das empresas e torna o serviço de segurança ainda mais eficiente.

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Dr. José Aldair Morsch
Dr. José Aldair Morsch
Cardiologista
Médico formado pela FAMED - FURG – Fundação Universidade do Rio Grande – RS em 1993 - CRM RS 20142. Medicina interna e Cardiologista pela PUCRS - RQE 11133. Pós-graduação em Ecocardiografia e Cardiologia Pediátrica pela PUCRS. Linkedin

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