Como está a saúde pública no Brasil e o que fazer para melhorar

Por Dr. José Aldair Morsch, 17 de maio de 2022
Saúde pública no Brasil

Diversas características da saúde pública no Brasil servem de exemplo para outros países.

É o caso de princípios como universalidade e a alta capilaridade do SUS, que marca presença mesmo em locais remotos.

No entanto, são muitos os desafios para administrar um sistema robusto em um território de dimensões continentais.

Daí a necessidade de maiores investimentos em gestão dos recursos financeiros, materiais e humanos para fortalecer o acolhimento no SUS.

Nos próximos tópicos, trago um balanço com os principais problemas e soluções capazes de melhorar a qualidade da saúde pública no Brasil.

A exemplo do emprego de inovações tecnológicas, como a telemedicina, que rompe com a barreira geográfica para levar assistência ágil aos usuários do SUS.

Boa leitura!

Saúde pública no Brasil: avanços e problemas

A oferta de saúde pública no Brasil foi uma conquista social importante, pois permitiu o acesso a consultas, exames e tratamentos de forma democrática.

Em vez de se restringir a pessoas que possam pagar ou a determinadas parcelas da população, a Constituição de 1988 passou a garantir a cobertura universal.

O que significa que qualquer indivíduo que recorra ao Sistema Único de Saúde (SUS) deve receber assistência necessária para sua recuperação completa, conforme o Art. 196 da lei:

“A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.

Assim, a saúde pública no país se baseia em três diretrizes:

  1. Descentralização, com direção única em cada esfera de governo
  2. Atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais
  3. Participação da comunidade.

A estrutura idealizada pela Constituição Federal ganhou vida com a estruturação do SUS, que dividiu as responsabilidades entre as esferas federal, estadual e municipal.

Esse foi o caminho determinado para atender à premissa de descentralização, distribuindo as demandas de gestão para facilitar ações e auditorias.

Contudo, esse modelo inspirador apresenta problemas na prática.

Principalmente em relação a desigualdades na oferta de serviços, escassez de recursos e mão de obra e falhas na comunicação entre os entes federativos.

Vêm daí as longas filas de espera, dificuldades no tratamento e falta de ações que foquem na prevenção e atenção primária à saúde.

A qualidade da saúde pública no Brasil x outros países

Afetada pelos problemas que citei acima, a qualidade da saúde pública no Brasil deixa a desejar.

Para se ter uma ideia, em 2021, a nação investiu apenas 10,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em saúde – valor bem menor que a média mundial de 15,3%, considerando países membros da OCDE.

Segundo o relatório “Aspectos Fiscais da Saúde no Brasil”, publicado pelo Banco Mundial, a maior parte dos gastos é bancada por organizações privadas, enquanto somente 45% do total de investimentos vem do setor público.

Esse padrão inverte a lógica de outros sistemas que ofertam saúde pública universal a seus cidadãos, como o britânico NHS (National Health Service, em inglês).

Tanto que a média de financiamento público para a saúde entre os integrantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico é de 73,4%.

Além do mais, a média de consultas de saúde por habitante no Brasil é de apenas 2,8, conforme o relatório sistêmico de fiscalização Saúde (Fisc Saúde 2016) do Tribunal de Contas da União.

Esse cenário coloca o país na 27ª posição entre 30 nações que tiveram os serviços de saúde avaliados.

Um dos gaps alarmantes está na pouca disponibilidade de medicamentos essenciais gratuitos à população brasileira.

Dados da OCDE revelam que as famílias financiam 90% dos gastos com produtos farmacêuticos.

Outros indicadores preocupantes estão relacionados a problemas de saúde primária, mostrando a falta de programas preventivos eficazes.

Um exemplo está no crescimento de 12,5% da taxa de sobrepeso entre os brasileiros, que foi a quarta mais alta entre 2006 e 2016.

Somente Costa Rica, Japão e Coreia registraram números maiores.

Já o consumo de álcool no Brasil disparou de 5,9%, em 2013, para 17,1% em 2019.

SUS no Brasil

No Brasil, os problemas de saúde primária estão diretamente ligados à falta de programas preventivos eficazes

7 problemas da saúde pública no Brasil

Confira agora uma lista de questões que prejudicam a qualidade dos serviços em saúde pública no país, começando pelos problemas estruturais, como as dificuldades na gestão dos recursos.

1. Gestão ineficiente

O modelo descentralizado do SUS tem seus prós e contras.

A gestão participativa está entre os pontos positivos, enquanto o desafio para monitorar e distribuir as receitas fica entre os negativos.

Nesse cenário, ficam evidentes fatores como a administração deficiente, que contribui para a grande desigualdade na oferta dos serviços.

Para corrigir essa falha, é essencial o cuidado na seleção dos gestores de instituições públicas de saúde, além da maior integração das esferas federal, municipal e estadual.

2. Verba escassa

Mencionei acima que o país destina somente 10,5% do PIB, sendo que apenas 4% ficam para a saúde pública, responsável pela assistência de mais de 70% dos brasileiros.

Como reflexo, a média per capita gasta com a saúde dos brasileiros é 30% inferior à global.

Esse fator limita o investimento em áreas estratégicas como a assistência primária, que seria capaz de resolver cerca de 80% das demandas de saúde.

3. Longas filas de espera

Uma pesquisa divulgada pelo Conselho Nacional de Medicina e Instituto Datafolha em 2018 revelou que o longo tempo de espera é uma das maiores razões de insatisfação por parte de usuários do SUS.

Tanto que 30% dos respondentes afirmaram ter aguardado mais de um ano para receber atendimento.

Problemas com o fluxo, triagem e informações disponibilizadas para a população estão por trás das filas imensas, que contribuem para o agravo de doenças e sintomas.

4. Superlotação de hospitais

Junto à má gestão de recursos, a escassez de programas de orientação aos pacientes também colabora para a superlotação de hospitais.

Essa situação caótica acontece quando a necessidade identificada de serviços de emergência supera os recursos disponíveis na unidade de saúde.

Muitas vezes, pessoas que desejam atendimento rápido acabam se dirigindo diretamente ao pronto socorro, quando o ideal seria que fossem até um posto de saúde.

Assim, os serviços de emergência ficam sobrecarregados com casos leves, atrapalhando a triagem e seleção de casos prioritários.

Além de atrasar a avaliação de todos os doentes.

5. Falta de leitos

O contexto que descrevi acima contribui para a falta de leitos nos hospitais brasileiros, mas não é o único motivo.

A demanda por equipamentos necessários para setores como as Unidades de Terapia Intensiva (UTI) e problemas administrativos também respondem por esse drama.

Essas questões fazem com o que o país perca leitos necessários para uma assistência de qualidade, como alertou o levantamento da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

O estudo revelou que o Brasil havia perdido 40 mil leitos entre 2008 e 2018, sendo 23 mil deles em entidades públicas.

Saúde pública no país

Os desafios para a saúde pública no Brasil são complexos, o que exige soluções multifacetadas

6. Desigualdade na distribuição de médicos

Dados da Demografia Médica 2020, realizada em parceria entre Universidade de São Paulo (USP) e CFM, atestam grandes desigualdades na distribuição de médicos pelo Brasil.

Enquanto a razão média nacional é de 2,27 médicos por mil habitantes, a região Norte apresenta taxa de 1,30, e a Sudeste, taxa de 3,15.

As disparidades aparecem nas comparações entre regiões, estados e até entre capitais e municípios do interior dentro de uma mesma unidade federativa.

Para se ter uma ideia, a cidade que registra a maior quantidade de médicos por habitante no país, Vitória/ES, conta com a razão de 13,71 profissionais por mil habitantes.

Já no interior do próprio estado do Espírito Santo, a razão média cai para 1,67.

7. Despreparo dos profissionais

Além da falta de mão de obra, a saúde pública ainda sofre com a falta de profissionais capacitados para a assistência.

O crescimento da demanda pelos cuidados com doenças crônicas, salários baixos e cursos de qualidade questionável estão no cerne desse problema.

Principais soluções para melhorar a saúde pública no Brasil

Neste ponto do texto, já ficou claro que os desafios para a saúde pública no Brasil são complexos, o que exige soluções multifacetadas.

Por isso, meu objetivo aqui não é limitar as soluções, mas trazer sugestões de aprimoramento para a gestão em saúde.

Acompanhe.

Treinamento dos profissionais

Equipes médicas, recepcionistas, secretárias, profissionais da limpeza e outras áreas necessitam de capacitação e atualização constantes.

Esse é um requisito para a oferta de serviços de qualidade em qualquer unidade de saúde.

Portanto, vale reforçar o treinamento periódico da sua equipe, que pode ser feito de forma convencional, online ou híbrida.

Melhora na comunicação

Ruídos e falta de comunicação são a raiz de diversas dificuldades no gerenciamento, atendimento e até no comportamento do paciente.

Portanto, foque na transparência, clareza e concisão de informações, a fim de que sejam compreendidas por todos.

Não se esqueça de veicular essas informações nos canais corretos.

Por exemplo, na intranet e via memorando para os funcionários, e em cartazes espalhados pela recepção para os pacientes.

Planos de carreira atraentes em cidades do interior

Se o propósito é atrair mão de obra qualificada para os municípios do interior e regiões Norte e Nordeste, é necessário oferecer bons planos de carreira.

E não estou falando só de salário, mas sim de benefícios adicionais por produtividade, possibilidades de crescimento, flexibilidade, etc.

Caso contrário, fica complicado estruturar uma rede pública de qualidade nesses locais.

Redefinição dos fluxos de atendimento

Esse é um ponto chave para diminuir as filas de espera no SUS.

É preciso otimizar a triagem por meio de ferramentas como distribuição automatizada de senhas e recuperação de dados de pessoas cadastradas.

Dessa forma, fica mais simples definir o que é prioritário e quem pode aguardar por mais tempo ou ser redirecionado a uma unidade básica.

Maior investimento em medicina preventiva

Medidas de conscientização e atenção primária têm o potencial de qualificar a assistência em saúde pública.

Portanto, faz sentido concentrar os esforços nessas ações e programas, diminuindo a demanda por consultas, exames e tratamentos dentro do SUS.

Auxílio da tecnologia

Inserir softwares médicos, agenda eletrônica e marcação de procedimentos online, por exemplo, ajuda a melhorar o fluxo da assistência.

Além de conferir agilidade e diminuir gargalos na assistência.

Uma das inovações mais úteis para as unidades de saúde é a telemedicina, que conecta profissionais de saúde e pacientes em diferentes locais com segurança.

Uso da telemedicina na saúde pública no Brasil

Devido ao potencial de alcançar locais remotos, a telemedicina tem protagonizado uma série de experiências de promoção da saúde pública em todo o país.

Uma delas foi descrita neste artigo, que comenta o sucesso da iniciativa de treinamento e assistência a comunidades ribeirinhas da Amazônia.

A iniciativa constatou resultados como:

Outra frente de interesse é o Programa Nacional Telessaúde Brasil Redes, do Ministério da Saúde.

Criada na década de 2000, a iniciativa tem como objetivo qualificar o atendimento oferecido pela atenção básica no SUS através de cinco tipos de serviços:

Como melhorar a saúde com a telemedicina

O sucesso de programas que empregam a telemedicina na saúde revela que essa é uma oportunidade para solucionar os problemas atuais.

Gestores e profissionais de saúde podem aproveitar vantagens como:

  • Teleconsulta: permite o atendimento a partir de qualquer local, incluindo o compartilhamento e criação de documentos médicos como atestados e receituário
  • Laudo digital: supre a demanda por especialistas qualificados para laudar exames de imagem e outros. Eles recebem registros online, que são interpretados e dão origem ao laudo a distância, assinado digitalmente
  • Prontuário eletrônico: é um sistema completo que armazena todo o histórico do paciente, viabilizando atualizações, pesquisas, cruzamento de dados e rápido envio
  • Segunda opinião médica: pode ser solicitada dentro de uma plataforma de telemedicina, dispensando que o especialista precise se deslocar até a unidade de saúde para auxiliar a equipe médica
  • Treinamento online: através da teleducação, profissionais se mantêm atualizados e aptos para oferecer um atendimento humanizado ao paciente.

Conclusão

Muitas são as conquistas e dificuldades enfrentadas pela saúde pública no Brasil.

A boa notícia é que existem soluções ao alcance dos gestores, como as disponíveis em sistemas de telemedicina.

Nesse contexto, parcerias com empresas como a Morsch possibilitam a qualificação da assistência em saúde, conferindo agilidade e organização aos serviços.

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Dr. José Aldair Morsch
Dr. José Aldair Morsch
Cardiologista
Médico formado pela FAMED - FURG – Fundação Universidade do Rio Grande – RS em 1993 - CRM RS 20142. Medicina interna e Cardiologista pela PUCRS - RQE 11133. Pós-graduação em Ecocardiografia e Cardiologia Pediátrica pela PUCRS. Linkedin

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