Fibrilação ventricular: identificação no ECG e conduta médica

Por Dr. José Aldair Morsch, 17 de fevereiro de 2022
Fibrilação ventricular

Pacientes com fibrilação ventricular (FV) costumam ser levados ao pronto-socorro inconscientes.

Isso porque a emergência evolui em poucos minutos, prejudicando os batimentos e a circulação sanguínea.

Se a vítima não for atendida de forma imediata, existe alto risco de morte por parada cardiorrespiratória.

E, mesmo quando a FV é revertida, o doente precisa de monitoramento e tratamento para prevenir um novo evento cardíaco.

Daí a importância de investigar a causa da fibrilação ventricular assim que o paciente estiver estável.

Para tanto, vale considerar as informações constantes no histórico de saúde.

Elas devem ser combinadas ao exame clínico e testes complementares como o eletrocardiograma.

Ao longo deste artigo, abordo as características da FV no ECG e principais diferenças em relação à taquicardia ventricular.

Também explico qual a conduta médica adequada nesses casos.

Leia até o final para conferir ainda insights que conferem agilidade e qualidade na interpretação do eletrocardiograma, usando a telemedicina como sua aliada.

O que é fibrilação ventricular?

Fibrilação ventricular é um ritmo cardíaco anormal e potencialmente fatal, caracterizado pela contração superficial das câmaras inferiores do coração.

Em vez de realizar o movimento completo de contração, os ventrículos em FV realizam movimentos fracos que se parecem com tremores.

Está aí a razão para essa arritmia grave se chamar fibrilação ventricular.

Como consequência, o ciclo de despolarização e repolarização fica descoordenado, impedindo que o miocárdio cumpra seu papel e bombeie sangue para as células do corpo.

Na FV, é possível observar anormalidades na formação dos impulsos elétricos responsáveis pelas batidas do músculo cardíaco, que pode partir de diferentes áreas do órgão.

Em uma situação normal (ritmo sinusal), o impulso nasce no nó sinusal, localizado na parte superior do átrio direito. Em seguida, percorre o seguinte caminho:

  • Nó sinusal
  • Átrio direito
  • Átrio esquerdo
  • Nó atrioventricular
  • Ventrículos.

Já na FV, essa trajetória fica descoordenada, levando à ausência de débito cardíaco e evoluindo para a parada circulatória.

Sinais como a queda progressiva da pressão arterial servem de alerta para que se considere a ocorrência de fibrilação ventricular.

Quando a vítima não recebe assistência imediata, o evento progride até provocar um descompasso tão grande entre os ventrículos que eles apenas tremem.

A condição evolui em alguns minutos, representando ameaça imediata à vida do paciente.

Diferença entre taquicardia ventricular e fibrilação ventricular

Antes de falar das diferenças, vamos voltar um passo para entender o que é a taquicardia ventricular.

Essa é uma arritmia de padrão rápido que ocorre quando os batimentos superam os 120 bpm em repouso e há sucessão de extrassístoles.

Extrassístoles são batimentos cardíacos extras, que podem aparecer de modo isolado, pareados ou em salvas.

Caso a taquiarritmia dure menos de 30 segundos, recebe a nomenclatura de taquicardia ventricular não sustentada.

Essa é a forma com menor potencial de causar complicações, pois não interrompe o ritmo sinusal por muito tempo.

Já a taquicardia ventricular sustentada é mais grave, mantendo o ritmo altamente irregular por mais de 30 segundos consecutivos.

Geralmente, a anomalia precede a fibrilação ventricular, que surge como resultado da aceleração dos movimentos nos ventrículos.

Ou seja, podemos dizer que a FV aparece como agravo da taquicardia ventricular, que evolui de um padrão rápido para um ritmo caótico dos ventrículos.

Fibrilação ventricular ECG

Para diagnosticar alterações cardíacas, é necessário conhecer o traçado básico do eletrocardiograma (ECG)

Quais são as causas da fibrilação ventricular?

Como adiantei na abertura do artigo, é fundamental descobrir a condição por trás da FV para evitar novos episódios em pacientes socorridos.

Normalmente, o descompasso nos movimentos vem de problemas no fluxo sanguíneo, em especial das obstruções decorrentes de doença arterial coronariana (DAC).

Isso porque a DAC provoca estreitamento das artérias coronárias, restringindo a oferta do volume de sangue necessário para o bom funcionamento cardíaco.

As síndromes coronarianas agudas como o infarto também representam uma parte considerável das causas da fibrilação ventricular.

O que faz sentido, uma vez que há interrupção momentânea na irrigação de partes do miocárdio pelo sangue, levando à morte de células importantes.

Insuficiência cardíaca e o desgaste das paredes desse tecido (cardiomiopatia) vêm logo em seguida como possíveis causas da FV.

Outras condições graves merecem ser consideradas, como choque e hipocalemia (redução nos níveis de potássio no sangue).

Bem como o uso de medicamentos que atuam em canais de sódio e potássio, a exemplo dos antiarrítmicos.

Vítimas de acidentes como choque elétrico e afogamento ficam mais sujeitas a sofrer com fibrilação ventricular.

E por fim, mas não menos importante, vale citar o uso de drogas como a metanfetamina entre as prováveis causas da FV.

E os sintomas?

Nem sempre é possível constatar os sintomas da FV.

Após alguns minutos, a maioria dos pacientes apresenta síncope, impedindo a percepção de alterações mais leves.

Listo, a seguir, os sinais mais comuns:

 

Fibrilação ventricular no ECG: como diagnosticar?

Mencionei, mais acima, que o ECG é o principal exame para a detecção da fibrilação ventricular.

Além, é claro, de outras arritmias, pois o seu traçado revela anomalias no ritmo cardíaco.

Para diagnosticar essas alterações, é preciso conhecer o traçado básico do eletrocardiograma.

Em situações normais, é possível identificar 5 ondas no ECG: P, Q, R, S, T.

A onda P indica a despolarização dos átrios, que são as câmaras superiores do coração.

P deve ser arredondada e suave, durando menos de 0,10 segundo ou 2,5 mm e com amplitude ou voltagem máxima de 0,25 mV.

Essa onda é seguida pelo complexo QRS, que sinaliza a contração dos ventrículos – e, portanto, merece atenção especial na suspeita da FV.

No ritmo sinusal, o complexo QRS é formado por uma onda positiva (R) e duas negativas (Q e S), com duração entre 0,06 e 0,10 segundo.

O batimento é finalizado pela onda T, que revela a repolarização dos ventrículos – quando são liberados íons de potássio e o músculo cardíaco relaxa.

São características da fibrilação ventricular no ECG:

  • Tremor na linha de base do traçado
  • Ondas muito rápidas e sem qualquer padrão, ou seja, com amplitude e duração variáveis
  • Falta de evidência do complexo QRS, mostrando problemas com a contração ventricular.

 

Qual a conduta médica na fibrilação ventricular?

Além das anormalidades no ECG, é importante considerar o histórico do paciente e o exame clínico que, em geral, demonstra falta de pulso.

Informações referentes ao histórico permitem uma avaliação mais embasada, mencionando possíveis doenças, hábitos e terapias capazes de provocar a FV.

Como vimos, diversas cardiopatias elevam o risco para a fibrilação ventricular.

Mesmo que não tenham sido diagnosticadas previamente, dá para recuperar sintomas sugestivos entre os documentos de saúde do doente.

Eles darão suporte na definição da conduta mais adequada.

Mas, antes de investigar o que provocou a arritmia, cabe à equipe médica reverter a FV antes que ela evolua para a parada cardiorrespiratória.

A estabilização da frequência cardíaca é feita por meio de cardioversão elétrica (choque), usando um desfibrilador automático externo (DEA).

Caso o aparelho não esteja disponível de maneira imediata, deve-se iniciar o protocolo de ressuscitação cardiopulmonar (RCP), fazendo compressões cardíacas para reanimar o paciente.

Uma vez que o socorro tenha sucesso, são administradas medicações para auxiliar na estabilização dos batimentos, como detalho abaixo.

Depois, o cardiologista avalia as opções terapêuticas para recomendar a mais apropriada a cada caso.

Opções de tratamento

Em um primeiro momento, a fibrilação ventricular deve ser revertida por meio da reanimação cardiopulmonar.

Se o paciente responder bem à cardioversão elétrica e compressões cardíacas, pode não ser necessário estender as terapias.

No entanto, devido à gravidade da FV, o mais comum é que o quadro exija acompanhamento médico e terapias que ajudem a manter o ritmo cardíaco normal.

As principais opções para a manutenção da qualidade de vida do indivíduo são:

  • Drogas que atenuam as chances de novos eventos de fibrilação ventricular, que provavelmente se repetirão entre os pacientes que não tiverem doenças de fundo
  • Controle das patologias causadoras da FV, com tratamento definido de acordo com a enfermidade e a condição clínica. As terapias de sucesso tendem a combinar avaliações periódicas, mudanças nos comportamentos prejudiciais e uso de medicamentos
  • Implante de cardioversor desfibrilador implantável (CDI), geralmente combinado a fármacos. O CDI evita complicações graves ao aplicar choques automáticos diante de arritmias como a FV.

 

Fibrilação do coração

Assim como os médicos, enfermeiros devem estar preparados para o atendimento imediato de vítimas de FV

Drogas usadas na fibrilação ventricular

Drogas com função adrenérgica e antiarrítmica podem ser empregadas para estabilizar a frequência cardíaca junto à desfibrilação e compressões torácicas.

Elas servem para reanimar o paciente, revertendo a parada cardíaca, e/ou tornar o ritmo do coração menos caótico.

Cuidados de enfermagem

Profissionais de enfermagem possuem um papel relevante no manejo da fibrilação ventricular, que é uma condição tempo-dependente.

Afinal, são eles que permanecem próximos aos pacientes internados, conferindo seus sinais vitais e administrando as terapias recomendadas pelos médicos.

Com o devido treinamento, serão capazes de perceber alterações relacionadas à FV e iniciar o socorro antes mesmo que o cardiologista vá até o doente.

Outro local em que costuma haver profissionais de enfermagem é nas ambulâncias, essenciais para o atendimento a emergências.

Nesse contexto, a equipe de enfermagem reconhece a FV, começa a fazer compressões cardíacas e a aplicar choques com o DEA.

Inclusive, o time deve zelar pela manutenção do desfibrilador, a fim de que esteja sempre em boas condições.

O zelo se estende aos medicamentos, que precisam ser mantidos em quantidade suficiente e condições específicas para sua conservação.

Vale lembrar que qualquer demora no atendimento à FV pode ser a diferença entre a vida e a morte da vítima.

Telemedicina na fibrilação ventricular

A correta interpretação do eletrocardiograma é fundamental para o manejo adequado da fibrilação ventricular.

Contudo, de nada adianta avaliar o traçado se isso não for feito rapidamente, a tempo de reverter quadros críticos.

No entanto, dispor de cardiologistas experientes para laudar o ECG de maneira eficiente a qualquer hora do dia não é fácil.

Em muitos locais, há escassez de especialistas qualificados para compor o laudo médico, atrasando o diagnóstico da FV e outras emergências.

Especialmente se o hospital ou clínica estiverem distantes dos centros urbanos.

Mas dá para solucionar esse problema contando com o suporte de uma empresa de telemedicina.

Parceiros da Morsch têm à mão uma série de ferramentas para otimizar a realização e a interpretação do ECG.

Veja detalhes a seguir.

Laudos online

O serviço de laudos digitais é ágil e seguro graças à plataforma de telemedicina.

Esse sistema segue as exigências do Conselho Federal de Medicina (CFM), armazenando os dados na nuvem (internet).

Ali, eles ficam protegidos de ataques e acessos por pessoas não autorizadas, usando mecanismos como senhas e criptografia.

O software Morsch pode ser acessado a partir de qualquer dispositivo conectado à internet, 24 horas por dia.

Nele, sua equipe pode compartilhar os registros do ECG e outros exames cardiológicos de forma simples.

Basta enviar os arquivos na plataforma para que nosso time de especialistas inicie sua interpretação à luz da suspeita clínica e histórico de saúde do doente.

O cardiologista responsável elabora o laudo e o assina digitalmente, garantindo a autenticidade do documento.

Em seguida, o arquivo é entregue no próprio sistema com agilidade.

Para se ter uma ideia, pedidos urgentes ficam prontos em minutos.

Quer aproveitar as vantagens do serviço de laudos online? Clique aqui.

Comodato de aparelhos médicos

Ao contratar o pacote mensal de laudos digitais, você ganha o direito de utilizar aparelhos como o eletrocardiógrafo a custo zero.

Esse é o aluguel em comodato, modalidade que funciona como um empréstimo enquanto durar a parceria com a Morsch.

Além de liberar equipamentos modernos, nossa equipe oferece capacitação para médicos e técnicos de enfermagem, com as melhores práticas na condução dos exames.

Os treinamentos online ficam disponíveis a qualquer hora do dia ou da noite na plataforma de telemedicina.

Conclusão

Conhecer os sinais de fibrilação ventricular é indispensável para a identificação e manejo dessa emergência médica.

Espero ter contribuído para ampliar seus saberes sobre a FV, aumentando as chances de sobrevida dos pacientes.

Se precisar de um reforço na emissão de laudos médicos, pode contar com a Telemedicina Morsch.

Nosso serviço de laudos online confere agilidade e qualifica o diagnóstico dos males cardiovasculares.

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Dr. José Aldair Morsch
Dr. José Aldair Morsch
Cardiologista
Médico formado pela FAMED - FURG – Fundação Universidade do Rio Grande – RS em 1993 - CRM RS 20142. Medicina interna e Cardiologista pela PUCRS - RQE 11133. Pós-graduação em Ecocardiografia e Cardiologia Pediátrica pela PUCRS. Linkedin

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