Tudo o que você precisa saber sobre medicina baseada em evidências

Por Dr. José Aldair Morsch, 16 de novembro de 2021
Principais barreiras na medicina baseada em evidências

A medicina baseada em evidências é de suma importância para que as intervenções adotadas pelos profissionais de saúde sejam mais eficazes e seguras.

No passado, o grande desafio dos médicos era ter acesso a um bom volume de estudos, pesquisas e demais fontes de informações para orientar suas condutas de maneira confiável.

Atualmente, o cenário é inverso. Na era digital em que vivemos, o acesso às análises e às conclusões de outros especialistas é amplo e garante uma tomada mais assertiva de decisões.

Entretanto, apesar das facilidades, novos desafios surgiram. Afinal, com tantas fontes disponíveis, é preciso ter critério para não basear-se em orientações equivocadas.

Para você ter ideia, um estudo divulgado pela Istoé aponta que, de 10 artigos de saúde compartilhados na internet, mais de 7 contêm informações imprecisas ou falsas. 

Não precisamos “ir longe” para observar este tipo de situação. Basta observar o período de pandemia, que foi marcado por uma “avalanche” de opiniões sobre condutas de saúde.

Em meio às discussões e até “fake news” sobre as intervenções para a Covid-19, tanto o público quanto os médicos tiveram dificuldade para determinar como agir adequadamente.

Evidentemente, a imprecisão não se limita a esse tipo de situação específica. A necessidade de uma base sólida de informações é algo inerente à rotina de todo profissional de saúde.

Sendo assim, praticar a medicina baseada em evidências é fundamental para evitar erros, tratamentos ineficazes e até para não comprometer a integridade dos pacientes. 

Mas afinal, o que o conceito significa? Por que ele é importante? Qual sua relação com a atenção primária em saúde? Como utilizá-lo na prática? Descubra ao longo deste artigo. 

O que é medicina baseada em evidências?

Como o nome sugere, a medicina baseada em evidências é aquela que emprega os melhores dados e pesquisas disponíveis para orientar as decisões tomadas pelos médicos.

Ou seja, posso dizer que ela é uma importante ferramenta para garantir o cuidado, a saúde e a própria integridade dos pacientes.

Afinal, ela serve justamente para minimizar erros e ações ineficazes nos tratamentos estipulados pelos especialistas. 

Atualmente, não existe mais espaço para uma medicina guiada apenas pela opinião, julgamento pessoal ou até pelo “senso de autoridade” dos profissionais de saúde. 

Além disso, como citei na introdução, atualmente existe um volume enorme e crescente de dados e evidências para orientar as práticas médicas. 

Diante disso, é fundamental ter critérios sólidos para determinar a qualidade das publicações ou até para coletar e utilizar as evidências de maneira assertiva. 

Exemplos de modelos de estudo

Exemplos de modelos de estudo

Na medicina baseada em evidências com abordagem orientada ao paciente, existem diversos modelos de estudos a serem aplicados.

Agora, confira os principais deles e suas características mais relevantes:

  • Relato de caso: é um estudo aprofundado de um paciente ou grupo de pessoas. Em suma, ele emprega um ou mais métodos quantitativos, que auxiliam na descrição do evento ou caso investigado;
  • Caso-controle: visa a comparação de um grupo que já teve o desfecho investigado e outro grupo de controle. O principal exemplo é a comparação de registros de pessoas com determinado perfil que sofrem de uma doença com outro conjunto de indivíduos com características parecidas sem a doença, a fim de determinar as causas patológicas;
  • Estudo corte: monitoram-se dois grupos simultaneamente para diminuir os potenciais de viés;
  • Ensaios controlados e aleatorizados: incluem análises experimentais, de intervenção controlada e alocação aleatória. Podem ser cegos ou não e duplamente cegos. A última opção é a mais indicada, pois funciona a comparação entre quem toma uma medicação ou um placebo, por exemplo;
  • Metanálises: consiste na combinação de determinado volume de estudos que abordam um mesmo tema e que têm resultados similares. Seu objetivo é aumentar a confiabilidade estatística das conclusões.

Por que a medicina baseada em evidências é importante?

Então, como você pôde ver na introdução deste artigo, há um elevado número de informações de saúde imprecisas e erradas.

A falta de confiabilidade não é algo próprio da era da internet. De acordo com um estudo de 1993 publicado pela New York Academy of Sciences, apenas metade das avaliações sobre intervenções médicas tinham metodologias confiáveis. Menos da metade delas era efetiva. 

Dessa forma, com o avanço da tecnologia e de novos métodos de atenção à saúde, certifique-se sobre os parâmetros que estão sendo adotados junto aos pacientes.

Isso vale tanto para evitar o desperdício de recursos nas intervenções de baixo risco, quanto para minimizar os impactos negativos oriundos das condutas de alto risco. 

Somado a isso, hoje em dia ainda existem muitas práticas “tradicionais” entre os médicos. Contudo, muitas delas têm uma adoção pouco eficiente ou mesmo segura. 

Ou seja, com a medicina baseada em evidências, esses riscos e problemas são eliminados. O resultado é uma atenção à saúde pautada na ciência. Ela maximiza os benefícios obtidos pelos pacientes e minimiza significativamente possíveis riscos. 

Medicina baseada em evidências x atenção primária à saúde

Acima de tudo, obter respostas sólidas para as perguntas clínicas é algo fundamental no contexto de Atenção Primária à Saúde. 

Afinal, a medicina baseada em evidências assegura o uso das conclusões mais pertinentes e apropriadas possíveis em prol dos pacientes.

Na área, o Ministério da Saúde aponta como ideal a adoção de revisões sistemáticas e metanálises ou ensaios clínicos de alta qualidade. Em síntese, é o que indica seu Caderno de Atenção Primária

Apontam-se estudos experimentais (em ensaios clínicos controlados e aleatorizados) como os mais apropriados para determinar a validade de uma conduta. 

Medicina baseada em evidências x atenção primária à saúde

Nesse sentido, os estudos categorizam-se em dois grupos:

DOE

A sigla para “Disease Oriented Evidence” significa “evidência orientada à doença”. Voltada a estudos que abordam desfechos intermediários (como controle de arritmia, redução da pressão, controle de colesterol, etc.). Como sua relevância ocorre na área de pesquisa, ela não deve ditar mudanças nas práticas diárias dos médicos. 

POEM 

Já o Patient Oriented Evidence that Matters, ou “evidência importante orientada ao paciente”, é o que garante evidências importantes para as condutas diárias. Esse tipo de estudo avalia os impactos das práticas em relação à diminuição de mortalidade, tempo de internação, custos ao paciente, ganho de qualidade de vida, entre outros fatores relacionados.

O que é preciso ter na medicina baseada em evidências? 

Os elementos fundamentais da medicina baseada em evidências são:

Formular uma pergunta clínica

Em primeiro lugar, o médico deve formular uma pergunta clínica. Ela serve para “responder” de forma precisa aquilo que o profissional está investigando. 

Para isso, determine qual a população estudada, a intervenção considerada, quais os seus parâmetros de comparação e quais os resultados esperados. 

Em outras palavras, podemos citar o método “PICO – patient, intervention, comparison, outcomes”. Em resumo, seria “paciente (P), intervenção (I), comparação (C) e desfecho (D). 

Imagine que o especialista quer saber se um paciente com pré-diabetes (P) deve utilizar metformina (I) ou não (C) para evitar o desenvolvimento da doença (D). Para isso, ele formula uma questão. No exemplo, ela poderia ser: “em pacientes pré-diabéticos, existem evidências para o uso da metformina na redução dos riscos de desenvolvimento de diabetes?”.

Encontrar a melhor evidência disponível

Feita a pergunta clínica, investigue melhor evidência para obter sua resposta. Como o acesso à informação é amplo hoje em dia, ter critério é fundamental.

Além disso, as categorias de estudos são inúmeras. Elas vão desde estudos de caso, meta-análises, estudos de corte, entre muitas outras citadas neste artigo.

Em todos os casos, o profissional deve determinar qual a opção mais alinhada à pergunta que está sendo analisada. 

Por fim, somado a esse cuidado, é fundamental ter atenção à credibilidade dos dados. Junto dela, às diretrizes adotadas e à validade da evidência, como explico logo abaixo. 

Avaliar a validade da evidência

A avaliação da validade das evidências é imprescindível. Isso depende de conhecimentos de critérios científicos oriundos da própria formação médica e da experiência do profissional.

Durante a verificação, é preciso certificar-se de que há tanto a validade interna quanto a validade externa das informações.

No caso da validade interna, os resultados do estudo clínico precisam estar alinhados e corretos em relação aos pacientes analisados na pesquisa.

Quanto à validade externa, os resultados também aplicam-se para pacientes que estão fora do estudo (como no caso específico do indivíduo atendido pelo médico).

Aplicação da evidência na prática

Por fim, com a pergunta feita, comparada com as evidências disponíveis e baseada em informações válidas, há a aplicação prática. 

Essa é a etapa em que a medicina baseada em evidências resulta na decisão do profissional de saúde sobre a conduta que aplicará no paciente.

Além de seguir as orientações de sua análise, o médico também deve guiar sua atuação com base na sua experiência clínica e nas particularidades da pessoa atendida.

Principais barreiras na medicina baseada em evidências 

 Principais barreiras na medicina baseada em evidências

Se refletirmos sobre o contexto em pratica-se a medicina baseada em evidências, podemos observar alguns desafios para a aplicação médica superados pelos médicos para que ela realmente proporcione os benefícios desejados. Isso inclui fatores como:

  • Falta de acesso a estudos atualizados;
  • Dificuldade de acesso a estudos confiáveis em bom volume;
  • Falta de tempo para busca de estudos pelos tomadores de decisão;
  • Limitação de recurso para o emprego das evidências;
  • Qualidade questionável das evidências apresentadas nos inúmeros estudos atuais;
  • Limitação quanto à capacidade de avaliação crítica das análises coletadas.

Portanto, superar essas barreiras é fundamental para que a medicina baseada em evidências gere impactos positivos na cadeia de atenção à saúde. 

5 passos para aplicar a medicina baseada em evidências 

Lembra dos requisitos que apresentei anteriormente para a medicina baseada em evidências? Podemos resumir o passo a passo para a sua aplicação da seguinte maneira:

  1. Primeiro, a necessidade de uma nova informação sobre diagnóstico, exame, prevenção ou tratamento deve ser convertida em uma pergunta a ser respondida;
  2. Com base na pergunta, o profissional deve identificar a melhor evidência possível. Com ela, o modelo de pesquisa mais adequado para respondê-la;
  3. Para isso, é fundamental ter critério na escolha dos estudos. Deve-se elencar somente aqueles com bases científicas confiáveis (os exemplos de bases de dados incluem Scielo, Medline, Lilacs, Embase, etc.);
  4. Depois, é preciso certificar-se que a evidência tem relevância e aplicabilidade. Além disso,  há a necessidade de  validação interna e externa para a utilização na prática;
  5. Por fim, a medicina baseada em evidências é convertida em condutas mais eficazes e seguras junto ao paciente. Isso também precisa alinhar-se às práticas clínicas do médico e ao perfil da pessoa atendida.

Faça uso da medicina baseada em evidências com a Morsch

Para praticar a medicina baseada em evidências, você precisa de uma base de dados completa e segura. 

Afinal, além das fontes externas de informações, muitas vezes as análises exigem estudos com grupos específicos e a coleta de dados anteriores dos pacientes.

Nesse sentido, contar com uma plataforma de telemedicina pode ser decisivo para criar uma base sólida e bem organizada de armazenamento e consulta de dados.

Contudo, mais que viabilizar as práticas remotas, esse tipo de sistema coleta absolutamente todas as informações inerentes aos telediagnósticos, teleconsultas, teletriagens e tudo mais o que é feito nas rotinas de atendimento.

Além disso, o profissional de saúde pode reunir absolutamente todas as informações que precisa e deseja no prontuário eletrônico.

Então esses dados transformam-se em relatórios práticos e intuitivos, tudo protegido por ferramentas seguras, flexíveis e baseadas em nuvem.

Quer saber mais sobre as possibilidades oferecidas pela tecnologia e contar com a melhor solução da área? Então conheça os diferenciais da Telemedicina Morsch

Conclusão

Aplicar a medicina baseada em evidências é imprescindível para que a área médica cumpra sua principal finalidade: garantir intervenções totalmente seguras e que tenham os melhores impactos positivos possíveis na vida dos pacientes.

Os métodos de estudos de coletas de informação devem sempre visar a resposta da pergunta clínica, o uso das evidências mais adequadas, critérios científicos sólidos e aplicações alinhadas às demandas do indivíduo atendido.

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Dr. José Aldair Morsch
Dr. José Aldair Morsch
Cardiologista
Médico formado pela FAMED - FURG – Fundação Universidade do Rio Grande – RS em 1993 - CRM RS 20142. Medicina interna e Cardiologista pela PUCRS - RQE 11133. Pós-graduação em Ecocardiografia e Cardiologia Pediátrica pela PUCRS. Linkedin

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