O que é AIDS, qual é o cenário no Brasil e como prevenir?

Por Dr. José Aldair Morsch, 3 de dezembro de 2021
O que é AIDS, qual é o cenário no Brasil e como prevenir?

Você sabia que 1° de dezembro foi o Dia Mundial de Combate à AIDS?

Praticamente todos já ouviram falar dessa doença e dos seus riscos. Contudo, infelizmente ainda há certo estigma em torno dela.

A boa notícia é que a conscientização sobre o tema cresce cada vez mais entre a sociedade, e hoje entende-se que o acolhimento e o amplo apoio são fundamentais para os pacientes.

Inclusive, os métodos de tratamento já avançaram muito e podem garantir plena qualidade de vida para os portadores.

Contudo, para que a AIDS seja minimizada, é indispensável conhecer seus sintomas, possíveis agravamentos e meios mais eficazes de combatê-la.

Mais do que isso, é imprescindível prezar por sua prevenção, saber as alternativas à disposição dos pacientes e as principais particularidades em torno da doença.

Com isso em mente, preparei este artigo completo para desmistificar a AIDS e compartilhar tudo o que você precisa saber a respeito dela. Acompanhe.

O que é AIDS? 

A AIDS é uma doença que compromete o sistema imunológico. Trata-se de uma sigla para Acquired Immunodeficiency Syndrome, que significa Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.

Ela gera o enfraquecimento das defesas do corpo. Assim, torna o mais suscetível ao surgimento de doenças que normalmente haveria o controle pelo organismo (como toxoplasmose, tuberculose, certos tipos de câncer, entre muitas outras). 

Em contrapartida, essas patologias, chamadas de “oportunistas”, começam a surgir com mais frequência e em maior intensidade. Inclusive, o próprio tratamento é prejudicado com a presença da AIDS.

As pessoas adquirem a AIDS por meio da infecção pelo HIV, conhecido como o Vírus da Imunodeficiência Humana, tradução de Human Immunodeficiency Virus.

Os principais alvos do vírus são os linfócitos T CD4+. Eles são glóbulos brancos que “comandam” as defesas do corpo contra todos os agentes invasores que o atacam. 

Nesse processo, o HIV liga-se à membrana celular do T CD4+, penetra seu interior e inicia a sua multiplicação. Com o tempo, o sistema imunológico vai sendo comprometido. 

Contrair HIV é o mesmo que ter AIDS?

Em primeiro lugar, vale ressaltar que a presença do HIV no organismo não quer dizer necessariamente que o paciente é portador de AIDS.

Enquanto o vírus se multiplica nas células de defesa, ele as rompe e procura por outras para dar seguimento à infecção.

Depois de certo tempo, o número de linfócitos T CD4+ começa a diminuir bastante. É só nessa etapa mais avançada que o corpo fica sujeito às doenças oportunistas e desenvolve a AIDS

O tempo médio entre a infecção pelo HIV e o surgimento da AIDS propriamente dita costuma ser de 10 anos.

Evidentemente, isso pode acontecer muito mais rapidamente em algumas pessoas. Em outras, pode ser que a AIDS sequer seja desenvolvida.

Nesse último caso, a doença não ocorre por conta do tratamento iniciado logo após a infecção do HIV. Se bem-sucedido, ele mantém a carga viral indetectável.

Como surgiu a AIDS? 

A comunidade científica ainda discute como surgiu a AIDS. Contudo, a teoria mais aceita é que o HIV tenha sido originado a partir do SIV, que é o Vírus da Imunodeficiência Símia.

Como o próprio nome indica, trata-se de um agente infeccioso que afeta os símios. Acredita-se que sua adaptação para os humanos começou no século 19, quando a caça e a domesticação do chimpanzé típico da África Ocidental eram intensas. 

Entretanto, os primeiros casos de AIDS só ocorreram muitos anos depois, durante os anos de 1970, no Haiti, na África Central e nos Estados Unidos. Na época, ela causava principalmente pneumonia e o sarcoma de Kaposi, um câncer raro de pele. 

No início, as pessoas utilizavam a doença para reforçar seus preconceitos. Isso porque, sua manifestação era associada apenas a grupos marginalizados, como homossexuais, profissionais do sexo, usuários de drogas como heroína injetável e os próprios haitianos. 

Quando ainda era denominada por termos preconceituosos, como “câncer gay”, a AIDS era praticamente uma “sentença de morte” e levava os pacientes a óbito em pouco tempo. 

Os primeiros sinais de conscientização só começaram a surgir depois que o HIV foi isolado e cientificamente descrito em 1983, pelo virologista francês Luc Montagnier.

Já as perspectivas de sobrevida tiveram início na década de 1980, quando os primeiros medicamentos antirretrovirais surgiram contra a multiplicação do vírus. O mais popular deles, chamado de AZT, começou a ser usado no tratamento da AIDS em 1987. 

No mesmo ano, a ONU e a OMS estabeleceram o 1º de dezembro como Dia Mundial de Combate à AIDS.

Desde então, os avanços são contínuos. Atualmente, já se entende que qualquer pessoa está sujeita a doença e que isso não é motivo de nenhuma vergonha. Além disso, os tratamentos passaram por uma verdadeira revolução, conforme explico nos próximos itens.  

A trajetória da AIDS no Brasil

A trajetória da AIDS no Brasil

A AIDS no Brasil teve seu primeiro caso registrado no ano de 1980. 

No país, a doença passou pelo mesmo processo de estigmatização e posterior evolução que ocorreu ao redor do mundo.

Se antes a população marginalizava os portadores e os viam como pessoas fadadas à morte, agora o cenário apresenta-se de outra maneira. Nesse sentido, há cada vez mais o entendimento sobree a doença e  ampla busca por sua conscientização. 

Inclusive, o Brasil foi um dos países mais avançados em relação à difusão do tratamento da AIDS.

Desde 1996, todos os antirretrovirais necessários são distribuídos gratuitamente para os cidadãos que vivem com HIV. 

Segundo informações do Ministério da Saúde, hoje existem 22 medicamentos em 38 apresentações farmacêuticas. 

É direito de todo paciente brasileiro receber esses remédios sem nenhum tipo de custo, se houver prescrição médica.  

Apesar dos constantes avanços, os índices de infecção do vírus ainda são preocupantes. De acordo com dados divulgados pelo UOL, são 40 mil casos novos por ano.

Isso significa que, a cada 15 minutos, uma nova pessoa contrai HIV em terras brasileiras. A prevalência na população nacional é de 0,4%. 

Do todo, 68% dos infectados pelo HIV são homens. Os outros 32% são mulheres. 52,5% dos novos casos atingem pessoas de 20 a 34 anos. 

Quais são os sintomas da AIDS? 

Assim que a infecção pelo HIV ocorre, ataca-se o sistema imune começa e ocorre a incubação do vírus. Isso dura de três a seis semanas sendo chamado de infecção aguda. 

Só depois de 30 a 60 dias depois da infecção que os primeiros anticorpos iniciam sua produção. Isso gera sintomas semelhantes aos de gripe, como mal-estar e febre. 

Depois, as células de defesa começam a interagir com as mutações do vírus, que passam a crescer e morrer continuamente. Como isso acontece de maneira equilibrada, não há enfraquecimento do organismo. Trata-se então de uma fase sem sintomas, que pode durar vários anos.

Como os sintomas da AIDS iniciais são parecidos com os gripais e muitas vezes não há sinais posteriores, é comum que a infecção do vírus não seja reconhecida até se agravar. 

Dada essa característica inicialmente “silenciosa”, é imprescindível realizar exames de rotina e também fazer uma investigação após eventuais situações de risco ou sob qualquer suspeita. 

Em seguida, após os ataques frequentes do HIV, os linfócitos T CD4+ se enfraquecem e começam a falhar em sua função de proteger o organismo. Assim, o paciente fica fraco e sujeito a infecções comuns. Então, surgem sintomas como emagrecimento, diarreia, febre e suor noturno.

Como resultado, com a imunidade baixa, as doenças oportunistas passam a ocorrer. É nessa fase mais avançada que a AIDS de fato surge. 

Sem o tratamento adequado, ela pode desencadear outras patologias, como pneumonia, hepatites virais, tuberculose, toxoplasmose, câncer, entre outras. 

Como ocorre a transmissão da AIDS?

De acordo com outra publicação do Ministério da Saúde, a AIDS tem transmissão que ocorre principalmente nas seguintes situações: 

  • Sexo sem camisinha (seja ele vaginal, oral ou anal);
  • Transfusão de sangue contaminado (sem riscos no Brasil, pois os bancos de sangue adotam padrões rigorosos de testes);
  • Uso compartilhado de seringas (que normalmente ocorre entre quem utiliza drogas injetáveis);
  • Utilização de instrumentos cortantes ou que furam (sem a devida esterilização);
  • Transmissão vertical da mãe infectada para o filho (durante a gravidez, parto ou amamentação, quando não há a adoção as rotinas médicas adequadas).
 Como ocorre a transmissão da AIDS?

Também é importante não acreditar em alguns mitos comuns sobre a AIDS e sua transmissão. Tenha em mente que a doença não passa entre quem:

  • Faz sexo com o uso correto da camisinha;
  • Beija na boca ou no rosto;
  • Encosta em lágrimas ou no suor alheio;
  • Abraça ou aperta a mão de alguém infectado;
  • Usa toalhas, talheres, copos, lençóis ou sabonetes compartilhados;
  • É picado por insetos;
  • Utiliza a mesma piscina ou banheiro que alguém com AIDS;
  • E qualquer outra situação semelhante.

AIDS tem cura? 

A AIDS não tem cura. Os tratamentos já estão avançados e garantem uma vida praticamente “normal” para os pacientes, mas o HIV ainda não há a possibilidade da eliminação do vírus do organismo. 

Em todo o mundo, cientistas procuram novos meios de combater a doença. Isso vai desde vacinas preventivas, até remédios que prometem “matar” o vírus. 

Contudo, até hoje, só existem dois registros de pessoas totalmente curadas da infecção pelo HIV. 

O primeiro é de Timothy Ray Brown, que em 2007 se curou após um transplante de medula óssea obtido de um doador que tinha um gene muito raro que atuava contra o vírus. 

Já o segundo, chamado popularmente de “paciente de Londres”, teve a cura depois de um transplante de células-tronco em 2016 (mas segue em tratamento de remissão, já que seu caso ainda é considerado muito recente). 

Apesar das esperanças geradas por essas duas situações, vale citar que elas são oriundas de fatores extremamente específicos e passíveis de grandes complicações. Portanto, não é possível simplesmente replicar o que ocorreu com ambos em todas as pessoas com AIDS.

Enquanto os cientistas trabalham em novos métodos para que a AIDS tenha cura, a meta entre os infectados é zerar a carga viral. 

Hoje em dia, a maioria dos pacientes que realizam o tratamento correto conseguem atingir e manter a supressão viral. Nesses casos, a AIDS não gera sintomas e nem riscos de doenças oportunistas. Para você ter ideia, ela deixa até de ser passada em relações sexuais. 

Tudo sobre o tratamento da AIDS

O uso de medicamentos antirretrovirais é o que barra a multiplicação do HIV e que impede que ele prejudique o sistema imunológico.

O tratamento da AIDS deve ser iniciado assim que o diagnóstico da infecção pelo vírus for recebido. 

Com a evolução dos procedimentos e composição dos fármacos, consequentemente o processo gera menor efeito colateral ao paciente. Dessa forma, a aderência aos tratamentos também cresceu na população.

Como mencionei anteriormente, existem 22 medicamentos atualmente. A terapia inicial envolve três antirretrovirais combinados, sendo dois deles de classes diferentes.

A boa notícia é que essas substâncias podem estar em um só comprimido. Chamadas de “2 em 1” ou “3 em 1”, elas simplificam a rotina do paciente e favorecem sua adesão. 

Existem inúmeras classes medicamentosas contra a AIDS, e não faria sentido citar todas elas neste artigo.

Entretanto, saiba que o esquema preferencial atualmente ocorre por meio de um medicamento chamado de Dolutegravir com a combinação de Lamivudina e Tenofovir, dosados em dois comprimidos por dia. Em breve, o Brasil deve aderir a um medicamento que reúne as três drogas em apenas uma cápsula.

Evidentemente, de acordo com cada caso, outras combinações podem ser necessárias. Isso vale principalmente para gestantes, mulheres que pretendem engravidar, pacientes com coinfecção ou diante de outras especificidades definidas na consulta médica.  

Sobre a prevenção da AIDS

A AIDS tem prevenção diretamente relacionada aos fatores de risco que expliquei anteriormente.

Ou seja, ao eliminar as causas de sua transmissão, não há riscos de contrair o vírus HIV. 

Sendo assim, as práticas preventivas contra a doença incluem:

  • Uso de preservativo em toda relação sexual;
  • Utilização apenas de agulhas e seringas descartáveis;
  • Testagens antes de transfusões (algo que ocorre em todo banco de sangue brasileiro);
  • Acompanhamento pré-natal contra transmissões verticais para mulheres grávidas;
  • Esterilização de qualquer instrumento cortante ou que fura.
 Sobre a prevenção da AIDS

Inclusive, para os profissionais de saúde, é imprescindível ter máxima atenção às normas de biossegurança, para que não ocorra contaminação em nenhum tipo de procedimento. 

Conclusão

Neste artigo, você pôde entender melhor o que é AIDS, como ela surgiu, qual sua trajetória no Brasil, principais sinais, transmissão, possibilidades de tratamento e métodos de prevenção.

Portanto, vale reforçar que, mais do que saber reconhecer os sintomas da AIDS e como minimizar os riscos de infecção, é imprescindível lutar contra seus estigmas, tendo empatia, humanização e apoio aos pacientes que vivem com ela.

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Dr. José Aldair Morsch
Dr. José Aldair Morsch
Cardiologista
Médico formado pela FAMED - FURG – Fundação Universidade do Rio Grande – RS em 1993 - CRM RS 20142. Medicina interna e Cardiologista pela PUCRS - RQE 11133. Pós-graduação em Ecocardiografia e Cardiologia Pediátrica pela PUCRS. Linkedin

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